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Já te aconteceu sentires-te tão triste, que parece que te sentes assoberbada? A dor torna-se tão profundamente insuportável… Ao ponto de não sentires alegria, contentamento ou prazer com a Vida. Andas na Vida “por veres andar os outros”. Reconheces? 

Outras vezes, sentes raiva. Muita raiva. É um calor, uma fúria, uma força incontrolável que toma conta de ti. 

Ou então a inveja… Aquela voz fininha que ecoa na tua cabeça a perguntar-te porque motivo a tua amiga tem o que tu não tens… 

Até parece que consigo ouvir-te a dizer-me “Oh Carla! Nem pensar! Eu não sinto inveja de ninguém e raiva é uma coisa feia! Não sinto nada disso!” Calma. Respira fundo. Está tudo bem! Continua a ler… 

O foco da questão está precisamente aí: na negação das tuas emoções. 

A tristeza, a raiva, a inveja, a culpa ou o medo, são emoções tão naturais quanto a alegria. Fazem parte da natureza humana e podem ser encaradas como partes tuas. Por si só, não te definem como um todo. Mas tu também és isso. A grande questão destas emoções, surge quando elas te dominam e, consequentemente, te bloqueiam.

Recentemente, uma conhecida falava-me sobre os mestres e gurus da espiritualidade. Quem sou eu para questionar se estas pessoas estão, realmente, a um nível superior e mais desenvolvido de consciência? Sem dados nem informações concretas, não posso opinar sobre isso. Posso, isso sim, refletir contigo sobre a falsa espiritualidade que grassa pelo mundo. 

Recordo-me quando, há uns meses, durante uma viagem de carro em direção a um retiro, uma colega nos contava sobre um conhecido dela, que professava uma determinada religião, aparentemente com uma capacidade superior de estar centrado e conectado com ele mesmo e que, chegado a casa, não raras eram as vezes que dava “valentes coças de porrada” na esposa. No momento em que ela contou aquilo, a consternação era palpável entre o grupo. 

Perguntei-me se alguma vez aquele homem ouviu que não há mal algum em sentir raiva. Que não há mal algum em manifestar as suas emoções. Perguntei-me se alguém, alguma vez, lhe disse que há formas adequadas e seguras para expressar a sua raiva, sem colocar a dignidade e segurança da esposa em causa. 

[não vou aprofundar aqui a questão de que todos os agressores foram um dia uma vítima e que muitos casos de violência podiam, sim, ser evitados, com o acompanhamento adequado…] 

Claro que aqui, estamos a falar de violência, que a meu ver é uma situação extrema… Mas e as doenças? Até que ponto as doenças são fruto de emoções negadas, recalcadas, escondidas? 

Tendencialmente, olhamos para as emoções como boas/ positivas ou más/ negativas. No entanto, as emoções não são boas nem más. Apenas, são. Existem e têm um papel a ser desempenhado na tua Vida. Enquanto que as emoções tidas como positivas te levam a querer explorar o mundo e a agir sobre ele, criando a Vida que desejas, as emoções vistas como negativas avisam-te dos perigos e das ações necessárias para que estejas em segurança. 

Visto assim, significa que as emoções tóxicas podem ser tanto as negativas como as positivas. Experimenta, por exemplo, estar brutalmente feliz e alegre, porque recebeste uma promoção no emprego e por algum motivo não o manifestas (quantas vezes te disseram para não mostrares demasiada alegria pelas coisas boas que te acontecem, para não atrair inveja?). Esta alegria vai, sim, transformar-se em algo que te intoxica e envenena, pois não está a ser manifestada. É como se o teu corpo fosse um rio e essa emoção parada e sem estar a fluir, o bloqueasse. 

As emoções são meras formas de recebermos notícias dos nossos estados internos, permitindo-nos conhecermos o nosso mundo interior e o caminho que ainda precisamos trilhar para nos tornarmos seres mais inteiros e completos. É por isso, essencial, que não vivamos presos a estas emoções e que nos permitamos encontrar as formas certas de manifestá-las.

Sentes raivas? Uns bons murros em almofadas ou num simpático saco de boxe vão saber-te pela Vida! 

Sentes alegria? Compartilha-a com quem te é querido, sentindo-te merecedora desse momento maravilhoso que estás a viver! 

Sentes inveja? Pergunta-te qual será o preço que essa pessoa paga para ter o que tem e se tu estás disposta a pagá-lo. 

Sentes medo? Analisa o perigo que esse medo está a indicar-te e o que podes fazer para contorná-lo. 

Sentes culpa? Perdoa-te. Recorda-te que estás a fazer o melhor que sabes e podes [e como diz o ditado, quem dá o que tem, a mais não é obrigado!]

Sentes tristeza? Permite-te chorar. Dá-te esses 5 minutos (ou 5 dias ou 5 semanas, tira o tempo que precisares) e chora. Liberta as lágrimas, sabendo que “chorar limpa a alma”, já diz o povo. 

Acima de tudo, aceita que essas emoções fazem parte de ti e da tua natureza, tão humana. Não há que ter vergonha ou receio de estares a ser menos espiritual por sentires aquilo que todos nós sentimos. Seres espiritual significa que estás disponível para te libertares do peso de emoções recalcadas, abrindo-te ao verdadeiro Amor – o Amor como um estado e não apenas como um sentimento.

 

Abraço de coração com coração. 

Carla