Photo by DESIGNECOLOGIST on Unsplash

É quase caricato que, na semana em que se recorda o homem que ultrapassou todos os limites em nome do Amor, eu te venha falar precisamente de… limites! 

Daqui por poucos dias, comemora-se o dia dedicado ao Amor [faz-me alguma confusão que o Amor precise de um dia especial para ser lembrado e comemorado… Mas isso, são outros quinhentos…]

A pergunta que teima em ser feita, particularmente nesta época, é como podemos viver o Amor? 

Muitos se preocupam com as prendas, os jantares românticos, os programas a dois… Não querendo desmerecer a importância que tudo isso tem, será suficiente? [Há alguns anos atrás, tive um namorado extremamente preocupado com esses pormenores. Se as saídas, jantares e programas a dois fossem o essencial de uma relação, ainda estaríamos juntos. Não é o caso.] 

Vale lembrar que existem várias formas de viver o Amor a dois. Desde a oferta de presentes até ao toque físico, passando pelas palavras ou pelo tempo de qualidade, cada um tem a sua própria forma de expressar os seus sentimentos. O que é importante para um não tem de ser, necessariamente, importante para o outro. 

Independentemente disto, qualquer uma das diferentes formas de viver e expressar o Amor, deve estar assente na relação de cada um consigo mesmo. Acima de tudo, amar o outro deve partir da capacidade de nos amarmos a nós mesmas!

Confuso? 

Imagina que no dia x tens um compromisso de extrema importância e, nesse mesmo dia, o teu companheiro pede a tua companhia num evento profissional dele. O que farias? Ou então, imagina que vais jantar com o teu companheiro e está mesmo a apetecer-te aquele prato de bacalhau com batatas a murro a nadarem em azeite, mas a ele apetece outra coisa qualquer… E ‘decidem’ pedir essa coisa qualquer para os dois. Ou imagina que ele não quer ir a um evento familiar e incumbete-te a tarefa de inventares uma desculpa para a ausência dele. Ou ainda, ele faz-te uma cena de ciúmes, porque depois da mensagem ou do vosso telefonema de boa noite, percebeu que ainda ficaste online no WhatsApp… O que é que te parece estar aqui em causa? 

Na minha perspetiva profissional e experiência pessoal, a maior parte de nós não sabe definir os limites necessários. Umas vezes, não sabemos delimitar os nossos próprios limites, outras não o fazemos com o outro. 

Estabelecer limites é extremamente importante. É reflexo de autoestima e respeito [por nós mesmas e pelos outros]. É um dos pilares basilares de qualquer relacionamento, seja ele amoroso, familiar, de amizade, profissional… Ou até na fila do hipermercado com um desconhecido [quem é que nunca se sentiu incomodada pela pessoa atrás claramente ultrapassar aquela linha imaginária que separa o nosso espaço pessoal do espaço do outro?]. Uma criança que não recebe esses limites e regras desde pequena, no seio familiar, vai estar totalmente despreparada para experimentar o mundo [seja o mundo da vida do dia-a-dia, seja o mundo do outro dentro de uma relação]. Saber dizer “gosto disto” ou “não gosto disto”, “isto eu aceito” ou “isto não suporto”, “isto é digno” ou “isto é indigno”, torna-se fundamental para a manutenção de uma relação. Sem isto, a relação enquanto um espaço de partilha, cooperação, respeito e harmonia, simplesmente desaparece. Poderá haver qualquer outra coisa, mas não a manifestação do Amor de facto. 

Podemos olhar para esta questão como olhamos para uma contratação profissional. Quando entras para um novo emprego, assinas um contrato, correto? Nesse contrato, estão definidos os teus limites, assim como os da entidade patronal. Sabes o que podes e não podes fazer, de modo a que a vossa relação seja o mais saudável e harmoniosa possível. 

Então, o que leva as pessoas a não definirem estes limites? O que faz com que se sujeitem a viver situações indignas? 

O medo! O medo de perder. O medo de ser excluída. O medo de não ser aprovada. O medo de não ser validada. O medo de não fazer parte. O medo, simplesmente. Quando tu não consegues definir o que é bom para ti e o que está a prejudicar-te ou drenar-te, é apenas sintoma de estares a querer agradar o outro, vivendo em função das necessidades alheias quase em exclusivo. Esqueces-te das tuas próprias necessidades, dos teus desejos, daquilo que te nutre. O medo de perderes o Amor do outro é tanto, que te esqueces de alimentar o Amor por ti mesma. E quem diz o Amor, diz o emprego, a companhia para tomar café à sexta-feira à noite e por aí vai… 

Neste momento, podes perguntar-me “Oh Carla, mas isto não é querer que o outro se comporte da forma que queremos? Então, o Amor não é aceitar o outro como ele é?” Claro que sim! O Amor parte sempre por aceitarmos o outro como ele é. Mas e tu? Estás a aceitar-te como tu és? Que Amor é esse que, para aceitar o outro como ele é, esqueces-te de como tu és de verdade? Eu acredito piamente que, quanto mais nós vamos conhecendo quem somos, quanto mais confiança vamos ganhando em nós mesmas, quanto mais nos vamos amando, deixamos de nos incomodarmos tanto com alguns comportamentos do outro. Afinal, o outro é reflexo de nós mesmas. No entanto, acreditarmos que somos iluminadas e que já nada nos incomoda e, portanto, podemos estar em qualquer realidade e circunstância sem nos sentirmos mal por isso, é vivermos num mundo de ilusão que não existe. 

Aceitares o outro como ele é, amares o outro pela sua totalidade, jamais é sinónimo de te sujeitares a tudo o que seja indigno para ti. Afinal de contas, por mais que aceites as características do teu companheiro, até que ponto ele tem direito de fazer uma cena de ciúmes que te humilhe e menospreze? Até que ponto ele tem direito de controlar os teus contactos? Até que ponto ele tem direito de escolher o prato que vão comer no restaurante? Até que ponto?… Será que o tal Amor incondicional deve ser assim tão incondicional? Ou deve partir da condição do respeito, do amor próprio e da consideração? 

Numa coisa eu acredito: quando algo te incomoda, te drena a energia, te deixa em baixo, é importante que olhes para essa tua parte mais fragilizada e percebas o que isso está a dizer-te acerca de ti. É importante que aprendas sobre ti mesma através dessa situação, que vivas essa experiência numa dinâmica de aprendizagem e evolução constante. E, a partir daí, já com essa aprendizagem feita, possas definir os tais limites que te permitam relacionares-te no teu dia-a-dia de forma digna e respeitosa, nutrindo-te, acrescentando-te e tornando-te uma melhor pessoa para ti e para os teus.

Feliz Dia de São Valentim!   

 

Abraço de coração com coração. 

Carla